Da Boavista ao Bonfim, quinze mesas que revelam a verdadeira alma gastronómica da cidade.
Sep 1, 2025
O apetite do Porto não é segredo. O que é menos óbvio, pelo menos para os visitantes, é quão variada é realmente a sua mesa. Caminhe desde a pedra polida da Avenida da Boavista até às ruas estreitas do Bonfim e encontrará fermentações coreanas, a precisão das facas japonesas e casas de marisco que poderiam ter sido retiradas de uma pintura portuária do século XIX. Esta lista de quinze restaurantes não é exaustiva, mas sim um retrato de onde o caráter da cidade parece fixar-se com mais teimosia.
1. Ichiban Japonês
Avenida do Brasil, Vila Nova de Gaia
O Porto sempre olhou para o Atlântico, mas aqui o olhar vira-se para o Oriente. O Ichiban não é um recém-chegado da moda; tornou-se um dos endereços japoneses mais fiáveis da cidade. O menu inclina-se para o sushi e para pratos vegan, lembrando que a cozinha japonesa sempre foi mais diversa do que a monocultura de atum e salmão que muitos supõem.
2. Capa Negra II
Rua do Campo Alegre, Porto
Uma casa de grelhados onde o cheiro da carne fica impregnado no casaco. É a segunda morada de uma instituição local, menos sobre refinamento do que sobre continuidade. O balcão de sanduíches transporta a aura de um diner de Edward Hopper — funcional, democrático, sempre cheio.
3. Buri
Praça do Bom Sucesso, Porto
Fine dining no nome, mas não na atitude. A cozinha japonesa do Buri está instalada num espaço envidraçado junto ao mercado do Bom Sucesso, que já viu desde soldados napoleónicos a protestos estudantis nos anos 70. Os pratos são precisos sem serem preciosistas, e a sala é curiosamente calma dada a agitação do bairro.
4. O Bom Amar
Rua do Bonfim, Porto
Um bar de tapas com a modéstia ibérica intacta. O nome — “O Bom Amor” — parece retirado de um poema medieval. O Bonfim é uma zona de armazéns e pequenos apartamentos; comer aqui é sentir a lenta transformação do bairro em quarteirão cultural, tijolo a tijolo.
5. O Astro Cervejaria Petisqueira
Rua da Estação, Porto
Parte fast food, parte balcão de tapas, parte bar. Um híbrido, como se a cidade não conseguisse decidir se queria ser Madrid ou Manchester. O nome “Astro” é uma ousadia local, mas os petiscos fritos fazem jus a ele.
6. Outsite Porto – Mouco
Rua de Frei Heitor Pinto, Porto
Um bar ligado a um espaço de co-living e música. “Mouco” significa “tampão de ouvido” no calão português, mas aqui trata-se de som: concertos, jam sessions, uma corrente subterrânea de jazz. Comer aqui é menos sobre a cozinha do que sobre entrar numa conversa mais ampla.
7. Ondo Korean Kitchen
Rua de São Victor, Porto
A comida coreana entrou em muitas cidades europeias, muitas vezes disfarçada de frango frito. O Ondo segue o caminho mais lento: kimchi fermentado, caldos profundos, o tipo de conforto que faz sentido numa velha moradia de São Victor. É tanto uma lição quanto uma refeição.
8. Zenith Brunch & Cocktails Bar
Praça de Carlos Alberto, Porto
Os turistas chegam em ondas, mas a cozinha acompanha. O Zenith é um dos poucos espaços de brunch que se tornou um marco em si mesmo. A praça já acolheu revoltas liberais na década de 1820; hoje, a insurgência é ovos Benedict às três da tarde.
9. CURB
Rua da Torrinha, Porto
Uma hamburgueria, simples e direta, embora o termo “fast food” não lhe faça justiça. Os hambúrgueres chegam com a precisão de uma linha de montagem, mas os sabores lembram mais uma grelha de quintal em pleno verão.
10. Casanova
Rua da Constituição, Porto
Cozinha vegetariana e vegan numa cidade ainda devota ao porco. O Casanova mostra que austeridade de ingredientes não significa austeridade de imaginação. A localização na Constituição acrescenta ironia: na mesma rua encontram-se alguns dos restaurantes mais carnívoros da cidade.
11. Salpicos Verdes
Rua de Álvaro de Castelões, Porto
Um pequeno refúgio vegan, escondido como se ainda não tivesse certeza da sua receção. Os pratos são delicados, mais próximos de experiências de horta do que de refeições convencionais. Comer aqui é entrar numa versão futura da cozinha portuguesa em que o porco já não é rei.
12. Amizade
Rua da Constituição, Porto
“Amizade”, anuncia o nome, embora a cozinha seja chinesa. Fica perto do Casanova, e essa proximidade transforma a rua numa espécie de atlas dietético: soja e tofu frente a enchidos e bifes.
13. Fujitien
Rua Prelada, Porto
Mais uma vez Japão, aqui com foco no sushi com um toque local. O endereço, escondido na Rua Prelada, torna-o quase um segredo. A classificação é alta; a ambição, maior ainda.
14. Cufra
Avenida da Boavista, Porto
O Cufra está na Boavista desde os anos 70, tempo suficiente para se tornar um marco em si mesmo. O marisco é a atração: caranguejo, amêijoas, polvo, os velhos clássicos marítimos. Pense nele como a resposta portuense às brasseries parisienses — duradouro e adaptável.
15. Eldorado
Avenida do Doutor Antunes Guimarães, Porto
Marisco novamente, mas num registo mais descontraído. O nome sugere tesouro, mas a sala de jantar é simples, quase austera. A riqueza está na frescura da pesca, não na decoração.
Uma cidade nunca é apenas um sabor. As cozinhas do Porto ensinam que a autenticidade não é o oposto da mudança; é aquilo que surge quando a mudança é absorvida, testada e tornada permanente. Comer aqui é observar a história transformar-se em hábito, um prato de cada vez.